Zona de Conforto #002 – A Capa Alternativa da Batgirl #41

Demorei alguns dias pensando se iria entrar na polemica da capa alternativa da Batgirl #41. Mais ainda para desenvolver argumentos e não ser mal interpretado. Bom segue minha interpretação. Mas primeiro vamos aos fatos.

Assim como Batman, Coringa está completando 75 anos. Ele fez sua primeira aparição ao lado do Homem-Morcego e o Menino-Prodígio na Batman #01. Para celebrar a data, dado a relevância do personagem no universo DC, em todas as edições de junho de 2015 serão lançadas capas alternativas em todas as revistas da DC Comics com o Coringa.

Em 1988, foi lançada a Graphic Novel A Piada Mortal, escrita por Alam Moore e ilustrada por Brian Bolland. Nela o Coringa decidi enlouquecer definitivamente o comissário Gordon, ele faz isso atirando em Barbara Gordon/Batgirl, depois tira fotos dela nua enquanto está ferida e obriga o comissário a ver tais fotos (reli a história e não posso afirmar ou negar que o Coringa estuprou Barbara, mas eu acredito que ele tenha feito isso). Barbara Gordon ficou tetraplégica devido a esse tiro. Como houve um reboot no universo DC e alinha do tempo foi reiniciada, os eventos de A Piada Mortal nunca ocorreram. Barbara voltou a ser Batgirl.

O ilustrador brasileiro Rafael Alburquerque, resolveu desenvolver uma capa relembrando a  experiência traumática que Barbara viveu nas mãos do coringa, segue a ilustração abaixo.

batgirl-41-variant-featured

É uma arte agressiva e chocante, quem está inserido no contexto sente a dor de Barbara imediatamente. Pelo menos eu senti. Por mais que os fãs do Batman adorem o Coringa, o cara é um psicopata que já matou milhares de pessoas e que tem prazer doentio em tentar enlouquecer suas vitimas.

Obvio, homenagear um maníaco homicida não apenas nesta capa, mas em todos os demais títulos da casa foi uma péssima idéia. Pior ainda, a revista da Batgirl é destinada para meninas jovens de 11 a 15 anos. Sou um homem de 31 anos de idade, tenho a maturidade para suportar uma arte dessa, meninas de 13 anos não. A capa é errada para aquela revista. PONTO.

Mas, sinceramente, não acredito que Rafael tenha tido a intenção de passar nenhum valor machista ou fazer apologia a violência sexual. Vamos à declaração do ilustrador.

“Minha intenção nunca foi ferir ou incomodar ninguém pela minha arte. Por essa razão, recomendei a DC que a capa variante fosse retirada. Estou muito satisfeito que a DC Comics entendeu as minhas preocupações e não vai publicar a arte da capa em junho, como anunciado anteriormente”          

Muitas pessoas ficaram ofendidas pela capa, pois ela remete a violência sexual. Só que o Coringa não é o herói, é o vilão, o pior dos vilões para ser mais exato. Mostrar o quanto ele pode ser cruel e que ele tem que ser combatido é necessário. A arte também é feita para chocar e ainda assim educar, mostrar o sofrimento de uma vitima é uma forma de sensibilizar o publico sobre a violência, podemos ver na expressão de horror e uma lagrima escorrendo do olho de Barbara. É isso que o Coringa faz, horroriza pessoas.

Essa polêmica me fez lembrar outra polemica bem similar em 2002, de um dirreversivel00os filmes que concorreram à Palma de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Cannes. O filme em questão se chama Irreversível do diretor francês Gaspar Noé. Agora eu preciso da ATENÇÃO de você leitor destas palavras. Este filme é muito forte e está fora dos padrões americanos que estamos acostumados, a cena de violência sexual deste filme é, com certeza, a mais chocante da história do cinema. Eu não estou brincando, se você costuma se sensibilizar com a violência em filmes, NÃO ASSISTA A ESTE FILME E NÃO PASSE DESTE PONTO.

Gaspar Noé é famoso por chocar as pessoas que assistem seus filmes, mas no caso de Irreversível foi ainda pior, as pessoas ficaram tão chocadas que muitas se levantaram e saíram da sala durante a projeção em Cannes e olha que o publico do Festival de Cannes esta acostumado a ver coisas bem cabeludas.

Irreversível é um filme contato ao contrario começando com a ultima cena e finalizando com a primeira, logo de cara vemos dois homens invadindo uma boite procurando desesperadamente um terceiro homem, eles o encontram o tal terceiro homem e brigam com ele. Por fim o personagem vivido pelo ator Vicent Cassel esmaga a cabeça do tal terceiro homem com um extintor de incêndio. Nas cenas que seguem vemos varias seqüências com os dois homens (Vincent Cassel e Albert Dunpontel) antes da cena da boite, fazendo de tudo para encontrar o tal terceiro homem.

Até que na segunda metade do filme vemos o motivo de tanta fúria. A personagem vivida por Monica Bellucci é estuprada pelo o tal terceiro homem e o personagem de Vicent Cassel é marido da personagem de Monica Bellucci.

irreversivel

A cena do estupro é essa da imagem acima, o que a torna tão polemica é a forma como foi feita. Ressalto que não houve a mínima intenção do diretor Gaspar Noé de fazer apologia a violência sexual, sua intenção foi fazer com que todos que assistissem a cena, sentissem o trauma do estupro. Ele queria que o público, principalmente aqueles que nunca sofreram violência sexual, entendesse o que só as vitimas reais entendem. Digamos que ele foi bem sucedido.

Como ele fez a cena? Com a câmera fixa que nem vemos na imagem acima, sem nenhuma trilha sonora e sem cortes, isso mesmo, sem cortes, você assiste a todo o estupro. Você escuta apenas os sufocantes gritos desesperados da personagem. Você acompanha o sofrimento dela do inicio ao fim. Você entra naquele estupro. Deve ter sido uma atuação muito difícil para Monica Bellucci, ela fez um trabalho único. Depois o filme fica mais suave, pois mostra a crise conjugal dos personagens de Cassel e Bellucci.

Por que esta cena é tão importante? Bem, posso dizer que todos que assistem esta cena se sentem estuprados, eu me senti estuprado. Fiquei chocado e marcado, não tão marcado quanto uma vitima real de estupro, mas afirmo que cheguei mais perto de entender tudo que as mulheres, vitimas de violência sexual, sentem.

Falei sobre este filme por que senti a mesma coisa vendo a ilustração da Batgirl com o Coringa. Choca, muito por sinal, mas às vezes se faz necessário para que possamos aprender e entender o sofrimento alheio.

Dedico este texto e todo o meu profundo respeito a todas as vitimas de violência sexual, e espero que em um futuro próximo essa atrocidade deixe de acontecer.

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