Em memória de Marcia Miyasaki.

Hoje eu perdi uma amiga, Marcia Miyasaki foi uma mulher alegre e com o sonho de se tornar uma escritora. Sonho que nos aproximou.

Uma revisora formidável e uma artista muito talentosa. Ela só precisava confiar mais em si mesma. Infelizmente Marcia não teve o tempo que queria para escrever seu primeiro livro solo. Mas escreveu muitos contos. 

Abaixo está o conto Sentimento Ruim. Que foi publicado no Fanzine que organizamos juntos. O Zinescritos. É um pedacinho dela que vai estar pra sempre conosco e que agora compartilho com vocês.

Sentimento Ruim

De Marcia Miyasaki

Meu nome é Jairo, vou fazer 27 anos e moro aqui mesmo em São Paulo.

Bem, o que tenho para contar é um pouco… difícil. Não, não descarto a hipótese de ser loucura minha. Mas é como eu sinto. É assim que eu me sinto e pronto, entende? Desculpe, estou um pouco tenso, doutor.

Eu a conheci num pronto socorro há seis anos. Eu estava acompanhando minha mãe, enquanto Michele tinha machucado o pé. Estava com a gêmea, Gisele. Ambas muito lindas. O mesmo cabelo cacheado, o mesmo olho castanho. Mas a do pé quebrado… não sei… Ela tinha um sorriso encantadoramente doce. Já a outra, praguejava e xingava, visivelmente sem paciência. A rispidez de uma contrastava com a delicadeza da outra. É claro que gostei mais, bem mais, da Cheli.

Puxei conversa. E assim nos tornamos amigos.

Não demorou muito e pedi Cheli em namoro. Eu me sentia o cara mais sortudo do mundo. E também o mais feliz.

Então reparei num fato curioso: minha cunhada Gisele, muitas vezes, nos acompanhava nos passeios. Cinemas, restaurantes… íamos em três. Claro, seria bem melhor estar a sós com minha namorada. Claro que eu podia entender perfeitamente que as duas eram muito ligadas, gêmeos geralmente o são… Nunca consegui me sentir à vontade.

Não, eu nunca as confundia. Fisicamente eram idênticas, mas a minha pequena era mais simpática, amorosa, o coração cheio de bondade e luz. Talvez fosse um pouco mais frágil, menos sortuda que a outra, mandona, voluntariosa, invejosa e…

Meu Deus.

Ocorreu-me que Gisele sempre se saía melhor em tudo. Absolutamente tudo.

Certo dia, fui prestigiar as gêmeas em seu recital de piano. Tanto uma como a outra tocavam muitíssimo bem, e eram bastante aplaudidas a cada peça. Eu me senti muito orgulhoso de minha pequena. Claro, da irmã dela também. Porém, a certa altura, Cheli começou a errar a música, a ponto de levantar-se e sair correndo, chorando, com as mãos no rosto. Estava inconsolável. De fato, nervosismo não deveria ter sido um problema, já que ambas eram acostumadas a tocar em público. Ao invés de tentar acalmá-la, Gisele debochava da irmã, fazendo-a chorar ainda mais. Nesse momento senti raiva de Gisele. Abracei Cheli com força, com carinho, até que finalmente aquietou-se.

Eu a vi chorar várias outras vezes. Minha doce Michele era risonha e feliz. No entanto, bastava a irmã se juntar a nós para que algo saísse errado: Michele chorando e Gisele rindo, chegava a ser insuportável. Havia uma rivalidade por parte de Gisele. Uma inveja velada e, por que não? Um ciúme. As coisas corriam naturalmente em favor de Michele por seu talento e simpatia, mas, do nada, ela se sentia doente, ou com sono, ou coisa assim. No final era Gisele quem sempre levava a vantagem.

Passei a odiar Gisele. E eu a odiava com toda a minha alma. Que desgraçada!

…Desculpe, fico emocionado quando me lembro, doutor. Sim, sim, já estou melhor.

Creio que foi há uns três anos. Na volta de um show. Cheli estava no carona, eu dirigindo, a cunhada atrás. Enquanto esperava o semáforo abrir, roubei um beijo de minha linda namorada. Ela sorriu, feliz. Eu também estava.

Foi nesse momento. Só ouvi um som de buzina, daquelas de carro grande tipo caminhão, e tudo escureceu. Quando acordei…

… quando acordei… eu… as meninas…

Era um hospital. Ufa, apenas um braço enfaixado. Olhei ao redor, preocupado. Vi uma das gêmeas no corredor, com curativos na cabeça, caminhando com ajuda de muletas. Corri até ela.

…Não era Cheli.

— Onde está a sua irmã? — perguntei, desesperado.

— Não vai nem ao menos perguntar se eu estou bem?

— Desculpe. Gisele, você está bem? — tentei ser educado.

— Estou sim — ela sorriu.

Meu desespero só aumentava diante da falta de urgência por parte dela:

— E a Cheli? Cadê ela?

— Ela não tem sorte nunca, coitada.

Entrei em choque. Michele tinha morrido no acidente.

Foi a primeira vez que senti aquilo. Eu sabia no meu coração que amava Cheli. Ela era tudo para mim, sempre tive muita certeza disso. Mas, naquele instante, eu senti alívio e alegria por ela ter morrido! Era um sentimento ruim, mas que vinha de dentro de mim. Como poderia?

Olhei para Gisele. Seus olhos castanhos… seus cabelos… tão igual à irmã! Um arrepio percorreu-me a espinha. Eu a abracei longamente e, em seguida, a beijei. Um beijo cheio de algum sentimento que eu não sabia dizer qual. Ela sorriu. Meu Deus, eu deveria estar louco.

Obrigado, doutor, vou aceitar um copo de água.

No outro dia, a campainha tocou. Era a Gisele. Fui abrir a porta, contrariado. No mesmo instante, aquele sentimento estranho me encheu o ser outra vez. Alegria? Tesão? Paixão? Não, não podia ser. Impossível! Nunca tinha sequer sentido alguma atração por ela. E estávamos nos beijando outra vez. Eu não entendo, doutor!

— Já se esqueceu de minha irmã, certo?

— Já, Cheli.

— Eu sou a Zeli. Me chame de Zeli, Jairo. Diga que me ama, Jairo.

Gritei com todas as forças Não! Mas não foi o que escutei da minha própria boca:

— Zeli, eu te amo.

Desgraçada!

Meu casamento com Gisele está marcado. Final deste ano.

Se quero me casar com ela? Pelo amor de Deus, doutor, não, não quero!

Por quê? Não sei. Topei porque quando ela está perto de mim, eu sinto como se estivesse apaixonado por ela. Nessas horas eu quero ficar com ela, e tudo, até me sinto bem. Mas… Quando estou na minha casa e ela na casa dela, aí eu consigo raciocinar. Um pouco. Doutor? Tenho certeza. Aquela lá é uma espécie de bruxa. Tenho certeza. Ela tem algum tipo de poder. Não. Não é telepatia. É alguma coisa diferente! Aquela mulher manipula meus sentimentos, do mesmo jeito que manipulava os da irmã dela, e de qualquer um. Ela faz isso para satisfazer aos próprios caprichos, faz tudo para ser como ela quer.

Doutor, acredite em mim. Por favor, me ajude.

*

Dr. Claudio Vasconcelos, renomado psiquiatra, estranhara o fato de seu paciente ter faltado à sessão sem aviso. Por volta do meio dia, desligou o telefone com pesar. Soube pela mãe do rapaz que Jairo tinha errado na dose dos medicamentos e fora encontrado sem vida naquela mesma manhã.

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